O Lucro de Salim

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O Lucro de Salim

Salim, libanês, casado com Samira e pai de quatro filhos, é um empresário bem sucedido no comércio de confecções infantis. A história de Salim, como empresário, começa no início da década de 50 do século XX, no norte velho do Paraná, na cidade de Jacarezinho.

A região do norte velho do Paraná, à época, era o carro chefe da nascente economia agrícola paranaense. A presença da etnia árabe, sobretudo os sírios e libaneses, já era acentuada no comércio da região e se estendia por todo o eixo de escoamento dos produtos agrícolas que compreendia as seguintes cidades: Jacarezinho, Santo Antônio da Platina, Joaquim Távora, Jaguariaiva, Pirai, Castro, Ponta Grossa, Curitiba e, via estrada da Graciosa, chegava a Morretes e, por fim, ao porto de Paranaguá.

Salim, quando saiu do Líbano e veio para o Brasil para casar com Samira, não falava português e, inicialmente, tinha bastante dificuldade de comunicação com os brasileiros. Como presente de casamento, Salim recebeu do sogro, Tufik, uma mala cheia de confecções infantis e um conselho:
"Tufik comprou essas roupas de outro patrício na Rua 25 de Março em São Paulo. Agora Salim tem que vender tudo em uma semana. O dinheiro da venda deve ser suficiente para pagar passagem de ida e volta de Salim até a Rua 25 de Março, em São Paulo, comprar mais outro tanto igual a esse de roupa e ainda sobrar algum dinheirinho que vai ser lucrinho de Salim".
No dia seguinte, mal falando português, Salim percorreu todo o bairro, batendo de porta em porta e cativando os clientes com a seguinte frase: "compra brimo que está barato. Se brimo não têm dinheiro agora Salim faz fiado e brimo fica freguês".

Não deu outra! Em menos de cinco dias Salim já estava em São Paulo, procurando preços melhores para o seu tão promissor negócio de roupas infantis. Salim tinha uma caderneta ensebada na qual anotava tudo: desde o pedido de fregueses; o endereço dos fornecedores; as compras a prazo e, é claro, as vendas que foram fiadas.

Salim logo ficou conhecido na Cidade e, com o auxílio de uma bicicleta com bagageiro, passou a visitar os patrimônios mais distantes da sede do município. Tinha uma rota quase fixa e os fregueses já esperavam a visita de Salim. No final do ano, nas semanas que antecediam o Natal, Salim recebia muitos pedidos e começou a pensar seriamente em abrir uma lojinha e assim fez.

Salim deixava Samira cuidando da lojinha, que ficava na rua principal, e continuava visitando os fregueses para vender mercadoria e também para convidá-los para visitar a lojinha de Salim.

Assim Salim foi prosperando. O tempo passou e, em 1966, Salim já tinha três filhos. Os filhinhos de Salim já tinham concluído o ginásio e precisavam continuar os estudos. Salim conversou com Samira, que estava grávida do quarto filhinho, e resolveram mudar para Curitiba.

Em Curitiba, Salim abriu uma pequena lojinha no bairro do Cabral e colocou os filhinhos para estudar no renomado Colégio Estadual do Paraná. No mesmo ano, 1966, nasceu o quarto filhinho de Salim. Mais um menino. Dois anos mais tarde, Salim abriu mais uma lojinha na Rua XV de Novembro (hoje conhecida pelo nome de Rua das Flores), a principal rua do comércio varejista de Curitiba. As lojinhas de Salim custearam os estudos dos quatro filhos (dois médicos, um engenheiro e um administrador de empresas). Todos, além da graduação, também concluíram o mestrado, exceto o mais novo que também tinha doutorado em administração de empresas. Em 1986, Salim já tinha lojinhas espalhadas em todos os Shopping Centers da cidade.

Salim se orgulhava muito de sua trajetória de vida e cultivava o hábito de reunir a família aos domingos para reforçar os laços familiares e também para ressaltar a importância a união familiar nos negócios. Nessas reuniões Salim contava sua história também para as netinhas. Não se cansava de repetir a sua história para mostrar que, com muito trabalho e perseverança, é possível ter sucesso.

Em uma dessas reuniões, o filhinho mais novo de Salim, do alto de sua sapiência doutoral, e já um pouco cansado de escutar a mesma história, fez uma observação: "talvez se o pai tivesse adotado outras estratégias mais agressivas de crescimento o lucro do pai hoje teria sido bem maior".

O mal estar estava criado. Salim ficou mudo, passado e petrificado. Somente após alguns instantes conseguiu reagir. Com toda a sabedoria dos experientes perguntou:

- Filhinho, sabe realmente o que é lucro?
- Claro! Qualquer calouro (aluno do 1º ano) de Administração sabe.
- O que é?
- É receita menos despesa e em regime de competência.
- Salim não sabe o que é regime de competência, mas lucro é bem mais do que isso. E, sem tomar fôlego, despejou:
lucro é o meu nome como homem de negócio;
lucro é nome de minhas lojinhas que são conhecidas em toda região metropolitana;
lucro são os clientes que eu tenho que são fiéis aos meus produtos e serviços;
lucro é o diploma de médico, engenheiro e administrador que filhinhos de Salim obtiveram;
lucro é a mansão que Salim tem no bairro Champagnat (um bairro classe alta de Curitiba);
lucro é o apartamento de cobertura que Salim tem em Caiobá (um balneário do litoral paranaense).
Dando uma pausa, Salim acrescentou:

- Se filhinho realmente quiser aprender o que é lucro, então amanhã eu te espero às nove horas na lojinha da Rua XV.

Deu mais uma pequena pausa e acrescentou:

- Isso é uma ordem.

Na segunda-feira, às 8:30 horas, Salim já estava na lojinha à espera do filho mais novo. Enquanto esperava, Salim passava um pano úmido na velha companheira de negociações: a mala que recebera de presente do sogro Tuffik e com a qual iniciara a sua atividade de mascate no interior do Estado. As 8:45 horas o filhinho de Salim chegou à loja.

- Bença, pai!
- Deus te abençoe.
- Eu não quis ofender o pai ontem.
- Eu sei. Pai não está magoado.
- Então ...
- Reconhece esta mala?
- Claro! Toda a família conhece. É a mala que o pai usava quando trabalhava como mascate.
- Certo! Pegue mercadorias da prateleira e, com cuidado, vá enchendo a mala.
- Para quê?
- Não discuta. Apenas faça o que pai manda e você vai entender o que é lucro.

Um pouco relutante o jovem doutor realizou a tarefa e remoía os seus pensamentos, tentando antecipar os acontecimentos. Também não descartava a possibilidade de a sanidade de seu pai precisar ser questionada. Para não contrariá-lo, realizou a tarefa em silêncio.

- Pronto!
- Não! Ainda cabe mais. Arrume as mercadorias com jeito que ainda cabe bem mais.

O filho de Salim tinha um só pensamento: "O velho pirou". Para não contrariá-lo, continuou a executar a tarefa.

- Pronto!
- Agora feche a mala.
- Pronto!
- Agora ponha este chapéu em cima da mala.
- Que chapéu ridículo é esse?
- É o chapéu que o pai usava quando trabalhava como mascate.
- Pronto!
- Viu?
- Vi o quê ?
- O lucro!
- Não vejo nada! Só vejo uma mala cheia de roupas e um chapéu ridículo sobre a mala.
- Não olhe para a mala!
- Como assim?
- Olhe para o que está fora da mala.

Agora, definitivamente, o jovem doutor acreditava que Salim, seu pai, havia "pirado".

- O que tem fora da mala?
- O lucro de Salim!
- Não achei graça.
- Tudo o que esta fora da mala e pertence a Salim é lucro de Salim. Não vê?
- Continuo não achando graça. Não é metodologicamente correto!
- É sim! Quando Salim começou a vida empresarial, Salim tinha uma mala cheia de roupas e um chapéu ridículo para morar em baixo. Descontando o patrimônio inicial de Salim, tudo o que Salim tem hoje é lucro de Salim.
- Não é metodologicamente correto!
- Você só sabe dizer isso? Você não tem outro argumento? Tente conciliar as suas convicções de homem de negócio com os conceitos acadêmicos e veja se eles são excludentes.
- Há um procedimento contábil para se apurar lucro. E é um procedimento universalmente aceito.
- Aceito por quem? Você tem certeza que o conceito contábil de lucro serve para todos os propósitos?
- O que o pai está querendo dizer?
- Que a metodologia de apuração de lucro deve se ajustar ao propósito para o qual ela se destina.
- E como ficamos?
- Concilie seus conceitos acadêmicos com as suas convicções de homem de negócio e tente ver o lucro pela ótica do empreendedor.
- Por exemplo ...
- Veja lucro como sinônimo de aumento de riqueza em um dado período.
- Mas riqueza e patrimônio não são sinônimos?
- Só se você considerar os valores tangíveis e intangíveis.
- Agora o pai está complicando o conceito de lucro.
- Estou não! É simples. Eu já expliquei. Tudo que está fora da mala, hoje, é lucro de Salim.
A pergunta que não quer calar: Será que a linha de raciocínio de Salim, para apurar lucro, encontra respaldo na literatura acadêmica?


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