Porque Guerra do Terror venceu Avatar

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Para um evento concebido tendo a inovação em mente, os resultados da cerimônia de premiação do Oscar na noite de domingo acompanharam rigidamente o roteiro que caracteriza os prêmios já há anos.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood pode até indicar filmes de sucesso para o prêmio. Pode contratar quantos comediantes deseje, e mexer com a duração do espetáculo até que os relógios andem para trás.

Mas na hora H, quando o banquete preparado por Wolfgang Puck ao final da cerimônia está chegando às mesas, o modelo para a escolha do melhor filme que a Academia desenvolveu ao longo desses 82 anos será rigorosamente respeitado. E foi isso o que deu o prêmio de 2010 a Guerra ao Terror.

Drama sério, filmado com esmero? Sim.

Um filme que desafia, ou até contraria, o gosto convencional do cinema? Sim.

Um trabalho tópico, que tanto provoca quanto inspira, e não só aproveita as manchetes mas as expande? Sim, duplamente sim.

De fato, é esse último aspecto do filme de ação de Kathryn Bigelow que provavelmente determinou o voto de muitos dos eleitores. Tomando por tema uma unidade de desativação de bombas do exército dos Estados Unidos, Guerra ao Terror é uma opção que permite que o Oscar pareça relevante, em tempo de guerra, de uma maneira que raramente vinha sendo possível.

A Academia jamais havia premiado um filme tão diretamente relacionado às ações de norte-americanos em guerra. Guerra ao Terror é o oitavo vencedor do prêmio de melhor filme a dar papel proeminente a soldados norte-americanos em combate, mas o primeiro a vencer enquanto a guerra mostrada nas telas continua a ser travada na vida real.

O cinema mal existia quando a Primeira Guerra Mundial estava em curso (mas Wings, vencedor de um Oscar posterior, toma esse conflito como cenário). O Vietnã havia sido abandonado anos antes que Platoon, The Deer Hunter e Forrest Gump despertassem lembranças sobre aquele conflito entre os espectadores. Os veteranos da Segunda Guerra Mundial esperaram quase uma década antes que A Um Passo da Eternidade relatasse suas experiências na tela e conquistasse o Oscar, e ainda mais para que A Ponte do Rio Kwai e Patton levassem o prêmio como melhores filmes.

Outro dos traços que a Academia costuma reconhecer e está presente emGuerra ao Terror ¿o fato de que tenha sido um fracasso de bilheteria merecedor de consolo- pode resultar em suposições incorretas sobre o filme. Ele teve a menor bilheteria entre todos os trabalhos premiados como melhor filme, e muita gente só está descobrindo agora, com o DVD, até que ponto a história é apolítica.

Guerra ao Terror não é um filme de guerra típico da era pós-Vietnã. Bigelow não é um Michael Moore ralhando contra o envolvimento norte-americano no Iraque. Ela não é Sean Penn ou Jane Fonda, pronta a aceitar acusações de apoiar o inimigo porque discorda das posições de seu país. Determinar se a guerra do Iraque tem ou não motivos justos é algo que nunca é discutido no filme.

Guerra ao Terror gira essencialmente em torno das botas pisando o chão, e dos seres humanos que as usam ¿soldados devotados (um deles, interpretado por Jeremy Renner, devotado até o limite da irresponsabilidade), e dotados de um senso inabalável de dever. A dedicatória apaixonada do prêmio aos soldados norte-americanos que Bigelow e o roteirista Mark Boal proferiram ao aceitar seus prêmios não foi pronunciada da boca para fora; os dois discursos representavam extensões naturais do filme, que tem por base as experiências de Boal como correspondente de guerra no Iraque.

É claro que a escolha incomodou muitos dos espectadores mais convencionais, que se apegavam à esperança de que um filme que tenham visto possa um dia vencer um Oscar. A maioria deles era formada por fãs devotados de ficção científica que torciam por ¿Avatar¿, e provavelmente adorariam ostentar a maquiagem Na¿Vi espetacular que Ben Stiller levou ao palco no domingo.

Avatar com certeza mudou o cinema; é uma maravilha técnica que influenciará para sempre a maneira pela qual filmes são produzidos e exibidos. Mas a noite do Oscar é a única do ano, em Hollywood, na qual o dinheiro costuma ser derrotado pela posteridade ¿uma exibição prematura de senso de propósito da parte de um setor caracterizado pela frivolidade.

Avatar é o cinema do futuro. ¿Guerra ao Terror¿ foi o filme do momento.

E se sabemos uma coisa sobre o Oscar, depois de 82 anos, é que a Academia é muito melhor em contemplar o passado do que em prever o futuro.

Fatos: a audiência do Oscar

A transmissão do Oscar pela rede de TV ABC atraiu audiência média de 41,3 milhões de pessoas, cinco milhões a mais que no ano passado. Ela foi o programa de entretenimento mais assistido desde 2005, e conquistou uma média de 461 mil espectadores na WFTS canal 28, em Tampa ¿cerca de um terço das pessoas que estavam assistindo TV naquele mercado e naquele horário. 
 

Redação Terra


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